Black Lives Matter. Black Music Matter.

Precisamos falar sobre as vidas negras, cultura e black music!
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Precisamos falar sobre as vidas negras, cultura e black music!

A BLACK MUSIC

Falar sobre Black Music é quase tão divertido quanto ouvir ou tentar entender sua rica arvore genealógica. É interessante que o uso longevo e hegemônico desse termo “Black Music” vem sobrevivendo a diferentes gerações sem sofrer grandes contestações de significado.

Sua origem é imprecisa e sua paternidade questionável, mas provavelmente tem a ver com o surgimento das “Race Records”, nome dado às primeiras gravadoras que vendiam jazz e blues nos EUA, produzidas e dirigidas para o publico negro.

No Brasil, mais por questões comerciais do que raciais, não tivemos uma segregação social e comercial semelhante com relação ao samba ou chorinho, mas o racismo por aqui sempre existiu também.

Mas eu acredito que o surgimento da música negra como a conhecemos hoje remete ao próprio desenvolvimento da identidade e emancipação dos seus diferentes povos Afro Americanos.

Pixabay

A criação do termo Rhythm and Blues ou R&B, pela revista Billboard na década de 40, ajudou a alavancar essa música negra e os novos estilos que surgiram a partir dali. Cheio de simbologias e valores implícitos, essas músicas vão além dos seus aspectos regionais, comerciais ou técnicos.

Sua transcendência é fruto não só de uma criatividade única, mas também de uma diáspora racial perversa que até hoje tenta sem sucesso resolver seus próprios traumas e se superar.

 

MAIS DO QUE UMA VOZ

Movimentos como o próprio “Black Lives Matter” ou algumas das leis de compensação de cotas raciais que surgiram tardiamente no decorrer do tempo tentam amenizar isso, mas a suas crônicas densas e verdadeiras começaram mesmo a ser destiladas a partir do momento que os primeiros escravos começaram a viver e trabalhar por esses lados.

Cantar e tocar para um negro escravo daquela época era tanto consequência como necessidade de sobrevivência para expressar sua dor ou felicidade. Mas era também uma reflexão sobre toda aquela situação absurda a que foram submetidos e que eram obrigados a suportar.

Essa narrativa dramática e musical fez parte de uma estratégia de sobrevivência cultural que afirmava a todo momento que o povo preto estava vivo e consciente de tudo o que estava sofrendo. E que eles iriam resistir de todas as formas possíveis e superar aquela situação um dia.

Mais do que uma voz, os diferentes estilos artísticos e musicais surgidos nas Américas deram identidade e corpo a um povo preto até então invisível e inexistente aos olhos das emergentes, desiguais e racistas sociedades americanas, seja no norte, no sul ou nas ilhas do Caribe.

Por isso a música das Américas foi e é diferente da produzida no resto do mundo. O racismo que sempre esteve presente por aqui é um tempero que sempre estará presente na nossa música, de um jeito ou de outro. O movimento “Black Lives Matter” surgiu oficialmente em 2013, mas sua origem remete aos movimentos pelos direitos civis que desde sempre permearam a rica e mal contada história dos povos Africanos nas Américas de várias formas.

Samuel Corum/Getty Images/AFP

A CULTURA, A MÚSICA E AS VIDAS NEGRAS

Se não é de hoje que o mundo sentiu a necessidade de reafirmar que as vidas negras importam, nós do Jazzmasters estamos há 16 anos reafirmando que não só essas vidas negras importam, mas também a cultura e, principalmente, a música negra importa.

Com suas influências e qualidades ancestrais reconhecidas e reverenciadas no mundo todo, a Black Music é o pilar do jazz, do blues, do R&B, do rock, da soul, do funk, da disco, do hip hop e da música pop e eletrônica moderna.

E celebramos essa influência não só na música, mas em tudo que conhecemos hoje como entretenimento e cultura pop, pois essa herança foi cunhada e escrita há centenas de anos com muita resistência, ferro e fogo e que custaram também muitas vidas. A história da Black Music é mais do simplesmente a história da Música Negra, ela é a própria história do povo Africano que veio para a América. Por isso ela é rica, grandiosa e imortal, mesmo que escrita sob linhas tortas e pretas. Sua história se confunde com a do próprio continente Americano. Por isso ela precisa ser reverenciada e recontada, hoje e sempre.

 

Dudão Melo é Dj e produtor musical, filósofo e apresentador do Jazzmasters desde 2010.

Foto de destaque: Stephane Mahe/Reuters