Nesta edição do Jazzmasters, artistas independentes dividem espaço com nomes consagrados, o R&B conversa naturalmente com o funk, o acid jazz e o house sofisticado, enquanto produções modernas mantêm vivo o espírito das grandes gravações dos anos 70 e 80.

Aiyana-Lee indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, apresenta “Housebroken”, onde sua interpretação é intensa, impulsionada pela parceria com Spike Lee, pela presença ao lado de Denzel Washington e pelo reconhecimento da indústria cinematográfica. O clima muda, mas a essência permanece em “I Got You”, do Dojo Cuts. A banda australiana continua demonstrando que grandes discos não dependem de fórmulas industriais, mas de cumplicidade entre músicos apaixonados pelo que fazem. Nathan Goldentone e Sacha Simone construíram o projeto quase artesanalmente, transformando amizade, liberdade criativa e amor pela música em identidade sonora. Fechando o primeiro bloco, o The Bamboos confirma por que se tornou uma das maiores referências do funk moderno fora dos Estados Unidos. “I Don’t Wanna Stop” reúne tudo o que fez da banda australiana uma favorita entre colecionadores e DJs: metais afiados, baixo pulsante, guitarras precisas e um groove que parece sair diretamente da era de ouro da Deep Funk.

Na sequência, o Jazzmasters mergulha em um território onde o house sofisticado, o neo-soul e a produção independente convivem em perfeita harmonia. O duo Dam Swindle e Hailé Supreme abrem esse segundo momento do programa com “Not Enough”, uma faixa que traduz bem a evolução da dupla holandesa. Em seguida, Joyce Wrice confirma por que é uma das vozes mais interessantes do R&B atual. “Break Me In” combina sensualidade e sofisticação com uma naturalidade rara. Há ecos do neo-soul clássico de Erykah Badu e Jill Scott, mas também uma fluidez contemporânea que aproxima Joyce da geração de artistas ligados a Kaytranada, Lucky Daye e Masego. Sua herança japonesa e afro-americana parece ampliar ainda mais o alcance emocional da música. Fechando o bloco, “FRENCHGRL” mostra outra face da independência criativa. Nancy Rose construiu o projeto praticamente sozinha, escrevendo, produzindo e desenvolvendo uma sonoridade que mistura indie pop, neo-soul e folk com leveza. Artistas como FRENCHGRL lembram que liberdade criativa ainda pode ser um diferencial poderoso.

O nosso segundo set abre com o saudoso Beau Williams. “C’est La Vie”, uma joia de 1984 ganha um significado ainda mais especial após sua recente partida, agora em Junho de 26. Sua voz poderosa, frequentemente comparada à de Sam Cooke, traz elegância e emoção a uma canção que antecedeu o grande sucesso pop de Robbie Nevil. Lalah Hathaway entra em cena com “Let Me Love You”, e a conexão com Beau Williams não é coincidência: a faixa utiliza elementos melódicos de “C’est La Vie” para criar um diálogo entre duas gerações da soul music. Filha de Donny Hathaway, Lalah sempre soube honrar o legado familiar sem se tornar refém dele. Encerrando esse segmento, “Welcome to My World” mostra o lado mais maduro do R&B contemporâneo. Kindred The Family Soul transformou a vida conjugal em matéria-prima artística e construiu uma carreira baseada em canções relacionáveis, longe dos modismos passageiros.

Na reta final, o programa reforça sua vocação para conectar diferentes eras da black music. “Falling For You (Georgie B Remix)”, de Windy Karigianes, é um exemplo perfeito de modern soul elegante. Georgie B transforma a faixa em uma celebração do R&B clássico com acabamento contemporâneo. A grande novidade da programação é “Stay This Way”, encontro de Opolopo e Angela Johnson. O produtor sueco Peter Major construiu uma reputação sólida na cena soulful house graças à sua capacidade de unir tecnologia e musicalidade orgânica. Ao lado de Angela Johnson, uma das vozes mais respeitadas do acid jazz e do R&B sofisticado, ele entrega uma faixa que parece feita para durar. E fechando o programa, o Incognito retorna ao clássico “Everyday”. Bluey e sua banda ajudaram a definir a sonoridade do acid jazz britânico nos anos 90, e a faixa continua soando fresca graças à combinação de harmonias soul, arranjos sofisticados e a interpretação delicada de Pamela Anderson, a cantora do grupo nesta música. É um encerramento perfeito: elegante, luminoso e cheio daquele groove refinado que há décadas liga o Jazzmasters ao seu público.
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