Esta edição do Jazzmasters percorre uma linha elegante que conecta o jazz contemporâneo, o neo-soul, a disco music e o R&B moderno. Celebramos amor, identidade, independência e, principalmente, a força feminina. Em vários momentos da programação, as mulheres deixam de ser apenas intérpretes para se tornarem protagonistas de narrativas de liberdade, empoderamento e transformação.

Robert Glasper abre o programa com “Afro Blue”, ao lado de Erykah Badu, em uma gravação que simboliza perfeitamente a ponte entre o jazz e a música negra contemporânea. A releitura do clássico associado a Mongo Santamaria e John Coltrane tornou-se um dos momentos mais emblemáticos do álbum Black Radio, trabalho que redefiniu as fronteiras entre jazz, soul, hip-hop e R&B e conquistou o Grammy de Melhor Álbum de R&B. Na sequência, o duo threetwenty apresenta “who u think u foolin'”, exemplo do neo-soul que floresce fora dos grandes centros da indústria. A química entre o casal Ivana Nwokike e Filip Hunter cria uma atmosfera íntima. Fechando o primeiro bloco, o alemão Kilian Sladek surge com “Upside Down”, representando uma geração de artistas europeus que absorveu a linguagem do soul americano sem perder identidade própria.

Rudimental e Lianne La Havas trazem em “Breathe” o encontro entre a produção eletrônica britânica e uma das vozes mais elegantes surgidas no Reino Unido nas últimas duas décadas. Lianne acrescenta sensibilidade e profundidade, transformando a faixa em um convite para desacelerar e respirar em meio ao caos cotidiano. “It’s Your World” reúne o veterano Brian Jackson, parceiro histórico de Gil Scott-Heron, com Masters At Work, Raheem DeVaughn e J. Ivy. O resultado carrega a herança do soul politizado dos anos 70 e a transporta para o presente. Já “Watcha Want From Me”, dos Brooklyn Funk Essentials com Alison Limerick, revisita uma composição ligada à história da house music e a atualiza para tempos marcados por debates sobre justiça social. A presença de Alison Limerick transmite autoridade e experiência, transformando a faixa em algo maior que uma simples canção de pista.

Para o início do segundo set, Ben L’Oncle Soul faz algo raro em “Seven Nation Army”: pega um clássico absoluto do rock e o transforma em soul sem perder sua essência. O famoso riff continua lá, mas agora envolvido por metais, groove e referências diretas à Motown. Com “Do It For Love”, Jafunk e Stefan Mahendra apostam na vulnerabilidade e na sinceridade. É uma lembrança de que o amor também pode ser força, compromisso e coragem. E então surge um dos momentos mais celebrados da noite: “Cosmic Girl”, do Jamiroquai. Lançada em 1996, a música continua parecendo futurista. Jay Kay transformou a mistura de disco, funk e acid jazz em uma assinatura sonora que atravessou décadas sem envelhecer. Poucas canções conseguem traduzir tão bem a sensação de liberdade que a pista de dança pode oferecer.

A reta final começa com “Groove On”, do projeto Yoyohoney com Anita Jarrett e o remix de Paul Oakenfold. A faixa conecta soul, música eletrônica e produção orquestral em uma combinação sofisticada. Mas o verdadeiro manifesto da noite chega com “Pawa!”, encontro histórico entre Asha Puthli e o trio Say She She. A própria palavra “pawa” significa poder, e a canção assume explicitamente a missão de celebrar o feminismo, a união entre mulheres e a ação coletiva. A voz experiente de Asha dialoga com a nova geração em um hino de empoderamento feminino embalado por groove irresistível. Encerrando a seleção, Dina Carroll resgata os anos 90 com “Ain’t No Man”. Em uma época dominada pela dance music britânica, Carroll trouxe elegância, personalidade e presença feminina para o topo das paradas. A canção tem formato de hino e reafirma uma mulher segura de seus sentimentos e de suas escolhas, antecipando temas que se tornariam ainda mais presentes na música das décadas seguintes.
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Neste Jazzmasters, mostramos como a música negra continua reinventando suas linguagens sem abandonar suas raízes. Do jazz ao house, disco e neo soul, das lendas às novas vozes, o fio condutor permanece o mesmo: autenticidade, liberdade de expressão e a força transformadora da arte. E, desta vez, conduzida em grande parte por mulheres que ocupam o centro do palco, da narrativa e da história. Assim como a força desse casalzão Ivana Nwokike e Filip Hunter do ‘threetwenty’.
Confira: