Nesta edição do Jazzmasters, a viagem passa por diferentes territórios da música negra contemporânea. Entre novos talentos, produtores visionários e artistas que preservam a tradição enquanto olham para o futuro, o programa mostra como a black music continua encontrando novas formas de diálogo com nossos tempos.

Al Sunny abre o roteiro com “My Love”. O produtor e cantor francês constrói uma atmosfera apoiada em sintetizadores delicados, ritmo orgânico e uma elegância remete ao melhor da soul-pop contemporânea. Em seguida surge um dos pontos altos do programa. Em “Slow Heart”, os londrinos Blue Lab Beats confirmam por que se tornaram uma das forças mais criativas da nova geração britânica. Misturando jazz, hip-hop, neo soul e afrobeats, a dupla transforma uma demo esquecida de Jamila Woods em algo completamente novo. O interessante é justamente essa história: uma gravação feita anos atrás, destinada ao arquivo, ganha nova vida graças a uma releitura inspirada. E Jamila Woods faz toda a diferença. Sua voz carrega uma mistura rara de delicadeza, inteligência e profundidade emocional. A conexão com a música feita pelo coletivo londrino Nubiyan Twist com a jovem vocalista Eniola é quase um manifesto em defesa da criatividade coletiva. Jazz, afrobeat, soul e hip-hop se encontram em uma gravação pulsante, construída sobre interação, improviso e troca de energia.

Na sequência, mostramos que a soul music sempre encontrou maneiras de se reinventar sem perder a elegância. É exatamente isso que acontece em “Tellin’ U”. A cantora californiana Sidibe, dona de uma voz suave e luminosa ao estilo Sade Adu, aposta em um soul contemporâneo que flerta com o R&B moderno, o pop sofisticado e o groove descontraído da costa oeste americana. O grande diferencial aqui é a presença de MonoNeon, um dos baixistas mais criativos da atualidade e que atuava ao lado de Prince. Seu baixo elástico e cheio de personalidade conduz a música com naturalidade, criando uma atmosfera leve, sensual e irresistivelmente dançante. A temperatura sobe com “Day & Night”, encontro entre o produtor francês Dabeull e a cantora HolyBrune. É impossível não ouvir a faixa e imaginar uma viagem no tempo com sintetizadores analógicos e referências ao boogie sofisticado dos anos 80. Dabeull tornou-se um dos grandes responsáveis pela renovação desse universo sonoro, recriando sua estética sem transformá-la em mera nostalgia. Na sequência, Birdee e Kelli Sae apresentam “Best There Ever Was”, uma combinação que soa clássica e moderna ao mesmo tempo. O produtor italiano entende perfeitamente a linguagem da nu-disco contemporânea, enquanto Kelli Sae entrega aquilo que sempre fez de melhor: melodias memoráveis e interpretação calorosa.

O terceiro bloco mergulha definitivamente na cultura disco e house. “Can You Handle It”, do italiano TheDjLawyer, mostra como a paixão pelos clássicos continua inspirando novas gerações de produtores. Há uma atmosfera festiva e descompromissada que remete aos melhores momentos da disco music europeia. Logo depois encontramos uma verdadeira instituição da house music. Ten City retorna com “Family”, reunindo novamente Byron Stingily e Marshall Jefferson. Poucos grupos conseguiram unir tão bem espiritualidade, consciência social e música de pista. Três décadas depois dos seus maiores sucessos, continuam transmitindo uma mensagem simples e necessária: união, comunidade e pertencimento. Essa ideia de preservar a essência aparece novamente em “Love X Love”, clássico eternizado por George Benson e recriado por DJ Fudge, Chinua Hawk e Michael Gray. O mais interessante aqui é perceber como músicos reais continuam sendo o coração da música. Piano, baixo, guitarra, metais e vocais convivem de forma orgânica, mantendo vivo o espírito da gravação original de Rod Temperton e Quincy Jones. É uma lembrança elegante de que tecnologia e humanidade funcionam melhor quando caminham juntas.

No bloco final, Mark de Clive-Lowe e Vanessa Freeman apresentam “Together”, uma aula de sofisticação britânica. Broken beat, nu-jazz, soul e deep house se encontram numa gravação que reflete toda a riqueza da cena londrina das últimas décadas. Vanessa Freeman interpreta com a classe de quem conhece profundamente essa linguagem, enquanto Mark de Clive-Lowe constrói uma base rítmica rica e envolvente. Em seguida, uma parada obrigatória em “We Got The Groove”, dos Players Association. Lançada em 1980, a faixa representa um momento em que disco, jazz e funk encontravam um equilíbrio perfeito. Liderado pelo baterista Chris Hills, o grupo entendia uma verdade fundamental: o groove não é apenas um ritmo, mas um estado de espírito.
E talvez essa seja a melhor definição para encerrar o programa. Mais do que estilos ou épocas, o que une todas essas músicas é justamente essa combinação difícil de explicar e fácil de sentir: melodias que permanecem na memória, ritmos que movimentam o corpo e emoções que criam conexão. O groove continua sendo a ponte entre tudo isso.
Até o próximo Jazzmasters.
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Sidibe é uma artista independente, compositora e guitarrista com raízes na Louisiana e no Senegal. O papel de Sidibe como produtora executiva e sua duradoura parceria com Nico Stadi (Justin Bieber, Jason Derulo, Ne-Yo) e Warryn Campbell (Musiq Soulchild, Kanye West, Angie Stone) trouxeram um senso de continuidade à sua música, ao mesmo tempo que permitiram sua expansão.
Nesta música ela tem parceria com MonoNeon, baixista, cantor e compositor americano de Memphis, Tennessee. Seu trabalho abrange múltiplos projetos experimentais e colaborações, incluindo com o músico Prince.
Confira: