Da Literatura À Música. Irvine Welsh De Trainspotting Chega Com Sua Sci-Fi Soul Orchestra

Esta edição do Jazzmasters é uma travessia deliciosa entre gerações do groove: começa com o funk polido da nova cena canadense, passeia pelo soul eletrônico cheio de sensibilidade, mergulha na intersecção curiosa entre literatura e pista com Irvine Welsh, e fecha com três faixas que mostram como o pop, o hip-hop e o R&B contemporâneo aprenderam a dialogar com o passado para criar o futuro. É um episódio que equilibra irreverência, nostalgia, modernidade e muito talento — daqueles em que a pista e o coração caminham juntos.

Foto: The Free Label

Logo de início, as três primeiras faixas estabelecem um clima de festa com inteligência e que valorizamos muito. O The Free Label abre com um groove forte, cheio de precisão técnica, lembrando que o formato banda ainda tem muito a dizer. “GALS4U” tem aquela vibração Silk Sonic de pista com baixos e vocais elegantes. Em seguida, Cosmo’s Midnight traz outro tipo de calor: mais etéreo, mais adulto, com “Borrowed Time” revelando a maturidade dos gêmeos australianos ao apostar numa produção mais orgânica e num clima de neo-soul no ar. E Howard Johnson, com seu boogie eterno em “Keepin’ Love New”, aparece perfeitamente restaurada pelo edit de Save The Robots — um clássico dos anos 80 rejuvenescido com respeito, brilho e pegada para 2025. Juntas, as três faixas criam a sensação de que o passado e o presente compartilham a mesma época.

Foto: Ash Reynolds

A sequência mantém o clima alto, mas muda o tom emocional. Ash Reynolds reaparece, transformando samples obscuros em um passeio de carro com janela aberta e Sol batendo no painel. Sway Row, com a elegância lisboeta misturada à escola francesa, traz aquele clima lounge sofisticado que combina jazz moderno com R&B macio, quase cinematográfico. E Frase fecha o trio com “Can’t Stop the Rain”, um soul híbrido com DNA jamaicano que soa resiliente e moderno ao mesmo tempo, com o charme digital e melódico da escola de Montreal. Esse bloco mostra que o soul contemporâneo pode ser global, diverso e emocionalmente preciso sem perder o groove.

Foto: Yung Bae

No centro do programa, surge a surpresa mais saborosa — e aqui vale o destaque especial. Irvine Welsh, sim, o autor de Trainspotting, aparece transformando literatura em ritmo com “A Man In Love With Love”. Sua spoken word dançante, sarcástica e pulsante é quase um conto beatnik para as pistas, embalado pelo seu projeto Sci-Fi Soul Orchestra como se fosse uma trilha perdida entre o cinema underground e o clubbing dos anos 90. É uma daquelas faixas que eu arriscaria dizer com uma irresistível curiosidade pop: estranha, charmosa e absolutamente envolvente. E ela faz ponte com dois sucessores que mantêm o clima lá no alto: Yung Bae, com seu Future Funk vitaminado e cheio de nostalgia digital, e The Originals, revisitados num edit que devolve à era Disco seu brilho. As três faixas juntas formam um arco perfeito entre ironia, euforia e tradição dançante — um dos momentos mais fortes do programa.

Foto: RAYE e Mark Ronson

E no final, o programa abre o leque. Mark Ronson e RAYE criam uma pequena obra em “Suzanne”: vintage, quebrada, elegante, cheia daquela textura retrô que Ronson domina como ninguém, com a voz de RAYE navegando entre drama e controle absoluto. Tyler, The Creator chega logo depois com “Ring Ring Ring”, mostrando sua habilidade de transformar referências improváveis — de Pharrell a Motown alternativa — em hip-hop harmônico, sofisticado, cheio de camadas e personalidade. E Winston Surfshirt fecha tudo com o charme ensolarado de “Desire”, uma mistura deliciosa de rap melódico, metais suaves e baixo sedutor, com aquele clima de final de tarde que deixa o ouvinte querendo mais. Um encerramento quente e irresistível.

Ainda não ouviu?? Ouça o Jazzmasters aqui.

Mark Ronson dispensa apresentações: o produtor que definiu o som retrô-moderno com Amy Winehouse e Bruno Mars. Aqui ele se une a RAYE, a estrela britânica que, após lutar por sua independência artística, se consagrou como uma das maiores vocalistas de Jazz-Pop da atualidade. A colaboração explora texturas analógicas e batidas quebradas. Ronson cria o “tapete” sonoro vintage perfeito para que RAYE use sua voz potente e técnica impecável, navegando entre o canto falado e notas altas de diva do Jazz.

Confira o vídeo:

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