Nesta edição do Jazzmasters novos talentos dividem espaço com artistas consagrados, enquanto grooves setentistas, elegância britânica, house music sofisticada e R&B moderno revelam como a música negra continua se reinventando sem perder sua essência.

GoldFord abre o roteiro com “Only You Do”, uma canção que confirma sua capacidade de transformar experiências pessoais em algo coletivo. Ex-executivo corporativo que encontrou na música uma segunda vida, o artista americano construiu uma carreira baseada na vulnerabilidade emocional, e aqui volta a explorar um de seus temas favoritos: aquela pessoa rara que muda nossa percepção do mundo. Na sequência surge um dos grandes destaques do programa. Ella Thompson, cantora australiana que vem chamando atenção nos círculos internacionais de soul, apresenta “Promise To Keep”. Sua música parece nascer do encontro entre as harmonias dos grupos femininos dos anos 60, o refinamento da Motown e uma abordagem absolutamente contemporânea. O mais interessante é que Ella não soa como uma artista tentando reproduzir o passado. Ela utiliza essas referências como ponto de partida para construir uma identidade própria. Sua voz carrega personalidade, confiança e uma maturidade rara para uma artista ainda em ascensão. Não por acaso já dividiu palcos com nomes como Jalen Ngonda, Lee Fields e Thee Sacred Souls. Vale acompanhar seus próximos passos. Fechando o primeiro bloco, “Every Minute”, do projeto Rodina com participação do Joe Tatton Trio, mergulha num território onde soul, jazz-funk e groove britânico convivem naturalmente. Joe Tatton é um daqueles músicos que trabalham longe dos holofotes, mas aparecem em praticamente todos os lugares importantes da cena soul inglesa das últimas duas décadas. Seja com The New Mastersounds, Haggis Horns ou acompanhando artistas como Corinne Bailey Era. Elegância pura.

Jacob Banks chega com “Love Like This” reafirmando sua posição como uma das vozes mais distintas da soul music contemporânea. Nascido na Nigéria e criado em Londres, ele desenvolveu um estilo que mistura soul, gospel, folk e R&B alternativo. Sua voz grave e poderosa funciona como um instrumento à parte. Em uma época dominada por produções cada vez mais digitais, Jacob mantém uma conexão emocional direta que lembra os grandes intérpretes clássicos. Albert Gold representa a nova geração britânica com “REASON?”. Sua música traduz bem o momento atual da soul music inglesa: respeito pela tradição sem abrir mão de elementos eletrônicos, pop e contemporâneos. Influências de Donny Hathaway, Luther Vandross e Earth, Wind & Fire aparecem de forma sutil, nunca como imitação. Logo depois encontramos um clássico moderno. “Wish I Didn’t Miss You”, da saudosa Angie Stone, continua sendo uma das gravações definitivas do neo soul dos anos 2000. Curiosamente, Angie quase recusou a música. Convencida por Clive Davis a gravá-la, acabou registrando aquele que se tornou seu maior sucesso internacional. O sample de “Back Stabbers”, dos O’Jays, conecta duas gerações da música negra americana numa combinação perfeita de dor, elegância e groove. Mais de duas décadas depois, a faixa permanece atual.

O terceiro bloco amplia o horizonte dançante do programa. Sam Padrul e David Blazer aparecem com “Thinking Out Loud”, uma celebração da herança Disco, do Yacht Rock e do Soul. É música feita para gerar bem-estar, lembrando que nem todo groove precisa ser complexo. Em seguida, o coletivo 40 Thieves revisita “Don’t Turn It Off”, clássico obscuro do Hot Chocolate, em um remix assinado pela dupla alemã Session Victim. O resultado mostra como a cultura dos remixes pode funcionar como arqueologia musical. Em vez de apenas atualizar uma faixa antiga, eles revelam novas camadas de uma canção que talvez nunca tenha recebido o reconhecimento merecido. Mas o momento mais irresistível do bloco vem com “Boogie Oogie Oogie”, de A Taste Of Honey, em sua releitura soulful house de 2026. Algumas linhas de baixo parecem destinadas à eternidade, e esta certamente é uma delas. O groove criado por Janice-Marie Johnson em 1978 continua tão eficiente quanto na era disco. O remix preserva a identidade do original enquanto o transporta para as pistas atuais. É um belo exemplo de como certos clássicos não envelhecem: apenas encontram novos públicos. Quase cinquenta anos depois, aquela linha de baixo continua fazendo exatamente o que sempre fez, colocar as pessoas para dançar.

No bloco final, Down To The Bone e Hil St. Soul apresentam “Get Up And Dance”, uma combinação perfeita de jazz-funk britânico, soul contemporâneo e energia de pista. Stuart Wade mantém viva uma tradição que remonta a nomes como Incognito e Brand New Heavies, enquanto Hil St. Soul adiciona sofisticação e carisma a uma faixa construída para celebrar o prazer simples de dançar. Kayo Adele surge com “Thinkin About You” trazendo uma abordagem moderna para o R&B clássico. Sua produção busca inspiração direta na Motown, no soul dos anos 70 e nas baladas dos anos 90, mas sem soar presa ao passado. É uma demonstração de que ainda existe espaço para artistas interessados em melodia, interpretação e emoção genuína. Encerrando o programa, Jarrod Lawson reaparece em “Be The Change”, agora remodelada pelo experiente produtor e remixer Michele Chiavarini. Lawson continua sendo um dos músicos mais respeitados da soul music contemporânea, admirado pela capacidade de unir jazz, R&B e sofisticação harmônica em uma linguagem acessível. O remix de Chiavarini acrescenta pulsação e elegância sem comprometer a essência da composição. É um encerramento perfeito para um programa que, do começo ao fim, mostra como a música negra segue evoluindo sem romper seus laços com a própria história.
Até o próximo Jazzmasters.
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GoldFord compartilhou sua primeira música inédita desde Space of the Heart, de 2025, retornando com o novo single ‘Only You Do’, uma faixa soul-pop envolvente e de ritmo lento que se inclina para a intimidade e o apelo emocional que se tornaram sua marca registrada.
Criado em St. Louis e agora morando em Los Angeles, passou uma década no mundo corporativo americano antes que uma perda pessoal o levasse a se aproximar da música. Desde então, sua música se espalhou silenciosamente, carregada por pessoas que se veem nela. O que começou em salas pequenas cresceu para shows esgotados por toda a América do Norte e além, onde essa mesma intimidade de alguma forma se mantém.
Confira GoldFord: